Tantra e Sexualidade - uma entrevista com Deva Nishok

Tantra e Sexualidade - uma entrevista com Deva Nishok

Esta é uma entrevista que foi concedida por email para a Revista Men's Health, em 14/05/2015. Pela importância das informações descritas por Deva Nishok, resolvemos publicá-la aqui em nosso blog. Confira!

Pergunta: Nossa sociedade é muito imediatista, há uma cobrança de que tudo aconteça rápido. Você acha que isso se reflete também na hora do sexo?

Deva Nishok: Eu diria que isso se reflete primeiro no sexo. Nossa sociedade subestima a importância do sexo, negligenciando o seu conhecimento e desvalorizando a sua adequada orientação. Esquecemos que o sexo é a base da vida, de onde a vida provém e em torno do qual a vida se desenvolve. O aspecto procriativo é a função mais importante do nosso corpo humano, capaz de modelar de maneira velada e inconsciente muitos dos nossos comportamentos, sonhos, pensamentos, desejos. Freud compreendeu a importância e o destaque que o desejo sexual proporciona ao comportamento humano, com suas influências sobre a libido, sobre o inconsciente, sobre mecanismos subjetivos e forças primitivas que modelam nosso comportamento cotidiano. Freud dizia que o sexo é a peste social, por repressão, todos têm muito medo de falar sobre a sexualidade humana, aprofundando o tema que está na base das neuroses sociais. Infelizmente, por força da influência das religiões e das políticas dos governos, não instituímos um modelo de desenvolvimento que permita ao ser humano usar adequadamente a força sexual de base, de natureza criativa e desrepressora, optamos por um caminho inverso, repressor e neurótico. Hoje já temos subsídios suficientes para mudar os conceitos prevalentes sobre a sexualidade humana. Precisamos de maior abertura do meio acadêmico para implementarmos políticas mais elucidativas e esclarecedoras a respeito da verdadeira importância de proporcionarmos melhor desenvolvimento da sexualidade humana de forma responsável e consciente, sem as características opressivas e limitantes que tornam o ato sexual insatisfatório para homens e mulheres. A prevalência da rapidez e da insatisfação sexual se deve principalmente á falta de informações adequadas e da educação que as pessoas recebem em relação á sexualidade saudável e benéfica. Os homens em geral não sabem como proceder para proporcionar melhor satisfação sexual ás suas parceiras. As mulheres também estão despreparadas para melhorar sua performance de compartilhar da melhor qualidade da sexualidade.

O que perdemos com essas relações sexuais tão rápidas? O prazer é menos intenso? Por quê? A conexão com a parceira fica comprometida, também? Outros pontos?

Deva Nishok: Perdemos muito, perdemos tudo. A sexualidade humana vai muito além dos genitais, ela começa no olfato, no paladar, na visão, na audição, no tato. A sexualidade permeia os sentidos físicos, tem uma certa relação com um sentido muito pouco comentado, o sentido háptico, que atua sobre os neurotransmissores, ativando as glândulas do nosso corpo e produzindo os hormônios. Os humores do corpo - os hormônios - são os grandes responsáveis pela interpretação e decodificação de informações sensoriais e motrizes, que modelam e determinam o nosso comportamento. Como a espécie humana não se beneficia de uma educação sexual adequada, desenvolvemo-nos de forma incompleta através da masturbação. A masturbação oferece poucos recursos de desenvolvimento, a maioria deles inadequados pois também a masturbação não é aceita pela sociedade, possuindo seus mecanismos repressores e supressores. A masturbação depende da fantasia, da imaginação. Criamos um falso centro sexual localizado no cérebro, que dá origem a um falso orgasmo, chamado de "Orgasmo Psicogênico". Esse "tipo" de orgasmo fantasioso tem origem no sentido háptico muito mais do que na experiência de corpo propriamente dita. A experiência de corpo é a experiência de toque, de tocar e ser tocado da forma adequada, sem a ansiedade de querer chegar a um resultado rápido, como por exemplo chegar logo á penetração, á cópula, á exposição dos peitinhos, a chupar compulsivamente e impulsivamente os mamilos, a dar bofetadas na cara e na bunda, para muitos, estereótipos mórbidos de prazer torturante. O corpo tem a sua linguagem própria, tem a sua própria forma de produzir os hormônios, ajustar os neurotransmissores. Cada corpo tem o seu ritmo, a sua freqüência, a sua vibração, a sua liberação ferormônica... Um desenvolvimento sexual adequado, uma educação sexual adequada deveria transmitir esses conhecimentos, preparando a espécie humana a reconhecer e a identificar os sinais sexuais individuais para que os ajustes hormonais que determinam as diferentes fases da sexualidade fossem alcançadas no seu respetivo modus. Prazer? há um absurdo número de mulheres - e homens também - que não sentem prazer algum no ato sexual. Falta a educação dos sentidos, o nervosismo causado pelo desempenho, pela performance, a dificuldade em lidar com situações imprevisíveis, as afetações comuns que o estresse proporciona ao desempenho sexual... As mulheres em geral necessitam de 40 minutos de estímulos adequados para alcançarem as melhores condições orgásticas, é preciso caprichar nas preliminares, há muito o que explorar pois um corpo é um sistema que envolve milhares de agentes sensoriais com diferentes tipos de respostas corporais. É preciso explorar esses estímulos sem pressa, sem compulsão. Cada pessoa reage de maneiras diferentes aos estímulos. Conquistar a confiança da pessoa, obter a sua cumplicidade, compartilhar sua intimidade a uma nível muito profundo, são a forma correta de alcançar melhores resultados para uma performance mais avançada em termos sexuais.

Qual é a principal diferença entre o sexo "convencional" e o tântrico? Há uma exploração maior dos sentidos?

Deva Nishok: O sexo comum, ordinário, convencional, tem foco nos genitais, tem valorização penetrativa e ejaculatória, o prazer tem características ejaculatórias e é muito fraquinho, rápido, sem sustentação, o prazer não se sustenta por mais do que 7 segundos... sim, isso mesmo, o orgasmo psicogênico, convencional á maioria das pessoas tem uma duração muito curta e não se consegue sustentar entrando logo em declínio energético, há no homem o declínio eretivo e a fraqueza mental. O homem fica inapto para o sexo. é frustrante! O Sexo tântrico provém de um desenvolvimento sensorial e corporal. Desenvolvimento sensorial porque como já foi dito acima, os sentidos físicos são fundamentais para a produção hormonal e sexo é atividade hormonal intensa. Quanto maior o orgasmo maior a necessidade de produção hormonal. Os hiperorgasmos produzidos pela sexualidade tântrica podem durar 15, 20, 30, 40 minutos de duração. Isso requer uma altíssima produção hormonal que advém da utilização dos sentidos físicos. No sexo ordinário, primitivo, só os músculos sexuais participam do orgasmo psicogênico. Como são os músculos que acumulam a reserva da bioeletricidade capaz de proporcionar o orgasmo, quanto maior as cadeias músculares que estiverem inseridas na experiência de orgasmo, mais intenso e prolongado será o prazer e o orgasmo. O desenvolvimento no Tantra irá permitir que a pessoa aprenda a linkar todas as cadeias músculares do seu corpo na experiência de prazer e de orgasmo. No Metamorfose desenvolvemos o conceito de Orgasmo Terapêutico, um procedimento terapêutico capaz de proporcionar experiências intensa de orgasmos e de prazer dissociadas do contexto sexual. É uma abordagem que ensina aos seus praticantes e adeptos como sintonizar seus músculos corporais com a experiência de prazer e de orgasmo. Sim, o Orgasmo pode acontecer independentemente do foco sexual e ele é profundamente terapêutico. Na sexualidade tântrica todos aprendem a fazer uso adequado e consciente dos sentidos para obterem as experiências de supraconsciência ou consciência expandida. Os adeptos do sexo tântrico aprendem a obter o "Orgasmo de corpo", o "Orgasmo contínuum", ou "Orgasmo de Vale", que corresponde a ter um orgasmo perene, sem o declínio comum nos orgasmos convencionais. Orgasmos múltiplos, ejaculatórios e não ejaculatórios, por um período de tempo incrivelmente superior ao que as pessoas estão habitualmente acostumadas.

Em sua entrevista para o programa Amor & Sexo, você sugeriu que um dos problemas do sexo é a questão de viver na fantasia e deixar o momento presente de lado. Explique melhor? Fantasia, então, não é tão bom quanto imaginamos?

Reposta: A fantasia tem a sua importância e o seu contexto, mas precisamos aprender a lidar com a realidade do momento, aqui e agora, colocando em ação as habilidades do corpo em corresponder com as nossas expectativas. A fantasia pode provocar um volume grande de energia que precisará ser dimensionada no tempo e no espaço, no corpo e nas emoções que nos convulsionam agora. Precisaremos nos ajustar á carga emocional e para isso teremos que sair da fantasia e estar no presente. Em parte isso se constitui um problema pois a fantasia cria uma carga energética que se esvai rapidamente. O ideal é usarmos as duas habilidades concomitantemente pois as duas formas usadas em sintonia nos ajudam a potencializar resultados. O desenvolvimento sexual através da masturbação por si só não nos habilita a corresponder a um aumento de performance que satisfaça a melhor performance sexual. Precisamos dominar os instintos com sua condição compulsiva e obsessiva, e trabalhar fora da influência dos genitais, há uma infinita variação de prazeres tão ou mais importantes e vitais que a genilatização do sexo.

Hoje, sexo e penetração estão extremamente relacionados. Mas essa é apenas uma etapa, certo? Que outras delícias estamos deixando de lado e que podem ajudar a prolongar o sexo e o prazer?

Deva Nishok: Essa é a visão primitiva do sexo, é o sexo procriativo, onde o pênis fica duro para que o espermatozóide seja lançado o mais próximo possível dos óvulos, de forma a fecundá-los. É realmente fundamental que ocorra a penetração? o mito popular determina que sim, que essa é a função do macho, que a fêmea seja penetrada... mas essa é apenas uma perspectiva da sociedade machista... Hoje nossa sociedade evolucionou para, por exemplo o Amor homoafetivo, como fica então o AMOR entre mulheres? nunca será completo pois não há o instrumento de penetração? Não creio, não é necessário que haja a penetração para que ocorra o prazer e o orgasmo. Precisamos mudar nossos paradigmas. A penetração tem trazido a sua cota de loucuras e perversidades sociais. Precisamos aprender a inserir o nosso corpo num novo modelo de resignificações sexuais e afetivas. Em nossas pesquisas no Metamorfose verificamos que há uma incrível capacidade do corpo de privilegiar os sentidos elevando-nos á máxima potência do prazer e do orgasmo sem que haja a necessidade da penetração. mas veja, não estou excluindo a possibilidade da penetração pois ela também tem o seu valor e a sua importância. Por exemplo, o homem possui uma reserva espermática para ejacular 4 vezes em sequência, e ainda pode ejacular mais 4 vezes sem presença espermática. Quer dizer, podemos ejacular 8 vezes numa relação sexual. Em nossas experiências práticas, em nossas pesquisas, ensinamos os homens a ejacularem 4 vezes seguidas num tempo de uma hora e meia. Essa é uma das maneiras de quebrarmos o condicionamento primitivo que determina que o homem só ejacula uma vez e entra num declínio energético que o torna sonolento e não reativo. Esse programa primitivo é o que vem instalado com a máquina orgânica, mas desenvolvemos as condições que permitem ao corpo fazer um upgrade no sistema, ensinando o programa a rodar organisticamente no prazer e no orgasmo sem a necessidade frenética de ejacular para declinar. Os parceiros ganham na performance, no prazer e na qualidade do orgasmo, infinitamente superior ao que se está habituado. Quando se aprende a potencializar os hormônios sexuais podemos interagir conscientemente, com maior responsabilidade sobre o nosso prazer e sobre os prazeres compartilhados com nossos parceiros, prolongando o ato sexual o tempo que se desejar, sem a característica compulsiva obsessiva ou a manifestação de prazeres mórbidos, degenerativos, agressivos.

Você também comentou em algumas entrevistas que a ejaculação não é obrigatoriedade para o orgasmo. São coisas diferentes? Fale sobre.

Deva Nishok: A ejaculação é um "reflexo" neuro-muscular, é um subproduto do funcionamento muscular. A ejaculação acontece por conta da ação dos músculos ejaculadores, adjacentes e vinculados á próstata. Existem processos ejaculatórios que não estão associados ao orgasmo. Ou seja, muitos homens ejaculam sem orgasmo, até mesmo sem ereção, É possível ocorrerem ejaculações com o pênis flácido, isso é relativamente comum. No Metamorfose recomendamos que os homens nessa condição passe por um desenvolvimento sensorial através das nossas massagens terapêuticas, são técnicas onde inserimos manobras de alongamento e movimentos rotacionais de eixo que atuam dentro de ume especificidade sensorial reeducando os sentidos. Os terapeutas são orientados a atuarem em conjunto com técnicas respiratórias que auxiliam no tratamento. A auto-masturbação não é recomendada pois ela reforça os gatilhos negativos ligados ao problema. A pessoa precisa experimenta-se numa condição de absoluta passividade, usando os recursos cognitivos do cérebro direito, reorganizando as funções sensoriais e motrizes do seu corpo. Todos os músculos do nosso corpo são de natureza espasmodicante, eles acumulam energia e se contraem, na condição de acumuladores. Quando os músculos alcançam uma determinada condição por acúmulo energético eles liberam essa energia entre as cadeias musculares, compartilhando em forma de reflexo orgástico. Então orgasmo é uma coisa e ejaculação é outra. As duas coisas podem ocorrer, juntas ou separadas, inclusive para as mulheres também, elas também são passíveis de terem uma ação ejaculatória durante os orgasmos. O número de mulehres passíveis de ejaculação chega a 70% das mulheres sexualmente ativas.

Gostaria que você desse alguma dica de estímulos que podem ser utilizados como ferramenta para prolongar o tempo do sexo. Pode dar algum toque para uma massagem satisfatória (nele e nela)? E sobre as posições, existe alguma mais indicada para quem quer retardar a ejaculação?

Deva Nishok: No Metamorfose oferecemos aos casais um "roteiro" que aprimora o desempenho sexual. É uma prática que denominamos de "Delerium - Treinamento Multiorgástico para casais". Esse treinamento deve ser feito sob supervisão e ele tem orientações específicas para s mulheres e para os homens também. esse trabalho foi desenvolvido em observações práticas que acontecem há mais de 20 anos no desenvolvimento de pessoas, sabemos o que funciona de forma prática e o que não funciona. Por exemplo, nas estimulações orais na vagina, as tradicionais "lambidas" que os homens tanto gostam, e que aprenderam a fazer através dos vídeos pornográficos, são pouco ou quase nada produtivas em termos de resultados sensoriais práticos e eficientes, são mesmo inúteis para a maioria das mulheres, muitas mulheres chegam a mentir falsos prazeres nessas lambidas tão sem sentido. Mas os homens (orais) gostam de lamber as vaginas e muitas mulheres, por não sentirem nada, não aceitam e não gostam dos estímulos orais vaginais. No desenvolvimento da Delerium propomos uma técnica que chamamos de "Extrusão clitoriana". ë uma manobra realizada específicamente no clitóris, que abrange concomitantemente uma pequena sucção junto com uma pressão circular com a língua, variando as manobras no sentido horário e anti-horário, com a língua bem lubrificada. Quando a manobra é realizada da forma certa há uma vibração que eclode na musculatura abdominal e se torna crescente, quanto mais forte e eficiente o estímulo maior a vibração abdominal até culminar com a espasmodicação violenta de natureza orgástica, que sinaliza um orgasmo de grande magnitude. Os homens precisam aprender a reconhecer os sinais corporais que sinalizam o aumento do prazer até a manifestação do orgasmo. Da mesma forma são poucas as mulheres que sabem o valor de um bom estímulo oral no pênis. Há também uma forma correta de atuar sobre a glande peniana, com pequenas sucções que aumentam a irrigação saguínea e valorizam o trabalho sensorial. Os movimentos de estimulação peniana profunda em concomitancia com a sucção causam uma sensação supervalorizada mas que requerem o treinamento da contenção ejaculatória. Outras sugestões importantes diz respeito ao olhar cúmplice da intimidade sexual, um olhar que transmite confiança, dignidade, respeito, que induz ao outro entregar-se ao que se está sentindo, que transmite apoio. Cheirar é outro capítulo especial da Delerium, cheirar da forma correta as partes ferormônicas do corpo, como as axilas, a parte inferior das mamas e os mamilos, as laterais do pescoço, a parte de trás dos lóbulos das orelhas, a nuca, os vestíbulos internos da junção das duas bandas do glúteo, (o rêgo). Cheirar o ânus do parceiro produz um incrível efeito sobre o cérebro, trocar um beijo ardente depois do respectivo estímulo oral nos genitais. A saliva é um hormônio pré-digestivo que atua de maneira muito distinta sobre a pele, provocando muitas reações sensoriais, capriche na saliva sobre o corpo do seu (sua) companheiro(a). Sobre a penetração, não tenha pressa. Penetre apenas depois que a sua parceira estiver com os sinalizadores da lubrificação aguçados, é preciso que a vagina verta um grande afluxo de líquidos. Procure posições mais passivas e permita que a sua parceira explore as posições de revelação do prazer. Cada pênis tem a sua energia própria, seu calor, sua dureza, permita-a explorar as profundidades e os movimentos muito mais benéficos para ela do que para você, dê-lhe espaço para essa exploração, incentive-a a descobrir-se sem a compulsão natural que muitas mulheres têm, de que tem que dar prazer ao parceiro. O melhor sexo é aquele que é explorado pelos dois, como um momento único que deve ser aproveitado ao máximo. Quando o sexo se torna "Leela", uma brincadeira onde as crianças descobrem a magia do êxtase, ele se desvencilha das obrigações que a representação dos papéis - masculino e feminino - nos impõem. Relaxe, brinque, explore, ofereça, receba, usufrua da intimidade sem medos ou culpas e naturalmente os resultados do prazer acontecem.





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